domingo, 19 de agosto de 2012

Em casa


Nas últimas semanas eu cansei de dizer a frase “em agosto vou para o Brasil”. Corrijo a frase, uma vez que deveria ter dito “em agosto vou para Matão”. Matão. Esse é o objetivo da viagem. Em Matão não tem praia, não tem shopping, não tem livraria e nem um café aconchegante tem. Mas tem a minha casa. Tem os meus pais e todas essas pessoas que os olhos brilham quando eu entrego uma mísera lembrança dos lugares por quais passei.

Aqui também tem os meus amigos: os que cresceram comigo, as amigas da adolescência - que me ligam dizendo que querem saber de tu-di-nho - e os da faculdade, daqueles que fazem o ônibus atrasar caso eu ainda não esteja nele.

Nesses dias eu tive churrasco e almoços em família. Na minha casa, na casa da minha avó ou no sítio. Reuniões com amigos, pizza com os amigos dos meus pais, visitas aos parentes que eu nem me lembrava. E por fim posso dizer que em Matão, quem diria, estou conhecendo pessoas novas.

Foi estranho sair por aqui pela noite e saber que não teria o NL, caso queríamos estender a diversão. Foi estranho escovar os dentes para dormir em uma terça-feira, sabendo que os meus amigos estavam indo para o Bigorna, e ao invés de ouvir que “mão direita é penalti” eu ouço os passos rápidos das minhas cachorras andando pelo quintal.

Matão, agora me lembrei, é tranquilidade. Aqui tenho tempo de pensar em tudo. E se eu ficar muito tempo sozinha no meu quarto, não vou me sentir angustiada e limitada pelo espaço. Ao contrário, vou me sentir segura. Às vezes, em tempos de mudanças, tudo o que precisamos, é voltar para casa. 


quinta-feira, 19 de julho de 2012

"You say it's your birthday"*


Então, 18 de julho! Gosto bastante de fazer aniversário, ao contrário de muitas pessoas que gostam de passar despercebidas, ou que acham que fazer aniversário é só ficar mais velhas, eu penso que essa data é a mais esperada. Não vou ser hipócrita, adoro responder os recados de Facebook, adoro quando o celular começa a tocar, adoro os abraços e os presentinhos.

E a cada 18 de julho eu gosto de lembrar do 18 de julho passado. Ontem eu me lembrei que, no ano passado, passei a semana em São Paulo . Meu aniversário foi na terça, e no sábado fui ao Comedians com a minha irmã e o meu cunhado,  assistimos o stand up de Murilo Gun. Fui infinitas vezes na Avenida Paulista, assistia FRIENDS pela manhã e tinha total liberdade para preparar o jantar na casa da minha irmã. Lembrei também que na segunda feira, dia 17 de julho, fui ao cinema com a minha tia, para assistir pela primeira vez o filme que está hoje entre os meus favoritos: Meia Noite em Paris. Lembro que estava lendo Cinzas do Norte, de Miltom Hatoum. Recomendo esse livro a todo mundo. E me lembro que quando eu terminei de lê-lo, me senti um pouco mal, um pouco sem destino. É bem verdade que eu não gosto de terminar um livro que estou gostando muito da leitura, sempre fico um pouco triste quando o fecho e coloco o marcador de página sobre ele, como se fosse uma marcação de que todas aquelas vidas que estavam nas suas páginas, morreram para mim. Não faço mais parte da história dele. Porém, naquela noite me senti meio estranha.

No dia seguinte, abri o meu email e estava lá que tinha sido classificada para o intercâmbio “cá de Portugal”. Lembro que liguei para minha irmã, e ela já chorou por mim. Isso ficou em segredo na casa dela. Até no domingo eu ir embora (antecipadamente) para contar aos meus pais. A partir daí, todo mundo já sabe da história.

E no 18 de Julho desse ano, não preciso dizer que foi o aniversário mais diferente até agora. Pra começar teve uma ligação da minha mãe de 2 minutos, ao contrário daqueles churrascos ou jantares que ela organiza tão bem. Isso já é muito estranho. Recebi também mais duas ligações made in Brazil, da minha tia e de uma amiga. Fiquei com aquela vontade de abraçá-las, a ponto de enquanto elas falavam, eu sentia o cheirinho delas. O que a saudade não faz...

Porém, esse aniversário lusitano foi muito divertido. Acordei na hora que eu quis, coloquei um vestido novo e saí por aí com boas companhias. Acabamos no Mondego, com vinhos, fritas e tremoços (o amendoim daqui). Depois, mais um tempo na Sé Velha, para comer o bolo que eu por acaso preparei no dia 17 de julho. Ele não ficou bonito, mas se é para usar uma citação de família, vai lá: “Feioso, mas gostoso!”. Também ganhei presentinhos:  ganhei um Elvis, uma Florbela Espanca e a obra que conta a maior aventura da Literatura: Odisseia. O Juca foi muito bom na metáfora com o nosso intercâmbio.

Escrevi tudo isso para dizer que fazer aniversário é muito mais do que aumentar um número na nossa conta, é um tempo que eu posso aproveitar como todos os dias deveriam ser. Mas, agora, eu estou pensando que isso acontece porque faço aniversário em julho, isto é, férias. Ah, dane-se, o que importa então é a minha sorte de canceriana. 



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Cara Literatura,


Enfim a última nota saiu. Encerrei o meu segundo semestre acadêmico melhor do que o primeiro. O que me deixa muito feliz. Acho que vou ter que admitir aquela história de adaptação que tanto falam por aqui. A minha última nota foi de Literatura Portuguesa. Após a leitura de um livro com características medievais e de ter estudado (decorado) Gil Vicente, enfim consegui a minha nota. Eu sei, eu sei, tenho que ficar feliz com a Sintaxe, porque é isso que não sei, que tenho dificuldades. Mas, chega uma altura na vida, que você já não se importa em ser ruim em uma coisa, mas perder o controle de algo que você tinha é mexer e virar do avesso o seu orgulho. Mas  você está fazendo as pazes comigo, ou eu estou fazendo com ela. Essa história de fazer mudanças radicais sempre faz um lado sair perdendo.

Eu vim pra cá, e meus pais não ficaram bravos comigo, ao contrário, me deram o maior apoio. Não tinha nenhum namorado pra fazer uma briga catostrófica. Não fiquei aqui depressiva e fazendo conta nos dedos pra ver quantos segundos faltam para 2013. Não engordei demasiadamente. É claro, alguém tinha que sair prejudicada, e justamente foi  você, Literatura.

Deixo aqui meu pedido de desculpas à você, que tantas vezes me salvou do tédio e me trouxe as melhores histórias que eu sei. Desculpas por no primeiro semestre te achar mesquinha e nesse ter faltado de algumas aulas, só por achar que você não merecia a minha presença. Vou me redimir a você, e a prova disso foi a compra de uns livros ontem. Prometo lê-los essa semana ainda, e depois organizar-te-ei  na minha estante. No semestre que vem, serás meu foco. E nunca mais brigarei com você, a ponto de te querer fora da minha vida.

Minha sinceras desculpas,
de sua admiradora entre tantos outros,
Rafaelle M. M.

sábado, 19 de maio de 2012

Para minha Mãe


A minha mãe disse que eu parecia triste. Mãe, não se engane e não se esqueça.

Não se esqueça de que eu me emociono perdidamente com a melancolia, mas só me permito àquela melancolia em que posso fechar o livro, dar STOP, ou desviar o olhar da imagem. Não se esqueça de que eu sei que a tristeza não é um sentimento digno e que não admito entregar-me a ela.

Não se esqueça de que não nasci para ser foliã, ao contrário, gosto do silêncio, ou gosto do meu barulho; aliás, gosto do barulho que eu sei de onde vem – e por isso me agrada.

Não se esqueça do som da minha gargalhada – que agora outras pessoas também a conhece – porque não termino um dia sequer sem ouvi-la.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A tal da Queima


Aqui em Coimbra na semana passada teve a tão esperada Queima das Fitas. É mais uma das tradições (a palavra mais usada na Universidade, tanto para o bem como para o mal: tradição) a qual marca a despedida dos estudantes. Então a Queima tem esse sabor de saudade antecipada de Coimbra, das noites, dos amigos, da liberdade.... dos tempos de estudantes universitários, isto é, aqueles anos em que nos julgam intelectuais e que na verdade só estamos reclamando da aula de amanhã às 9:00 da manhã.

Pois bem, no meio de tantas saudades e tradições é de se esperar algo triste, com lágrimas. Não nos enganemos, há sempre o Carpe Diem. Estou dizendo que a Queima é uma semana que tem festas, uma grande festa todos os dias, pra lá do Mondego. Tem bandas internacionais e tudo. É uma despedida para nunca mais esquecer.

Creio que essa minha primeira Queima não vai ser a minha última. Porém, acabei vivendo a semana passada com um pouco de saudade nos olhos, senti saudades por e pelos os meus amigos que logo menos estarão me deixando e retornando ao Brasil. Mas até lá há alguns meses para juntarmos histórias por aqui.

Aliás, tenho que esclarecer que na minha Queima eu assisti o ritual da serenata (o que marca o início da semana) do meu quarto, e adorei essa festa porque nas suas proximidades estavam vendendo algodão doce. Passei a semana de festas no meu quarto, indo às livrarias pela região, assistindo seriados, tomando cafés e tendo boas conversas. Não desci para a noite, fiquei por aqui vivendo a tranquilidade. Era para eu ter posto tudo em ordem, ao contrário disso, nem o aspirador no meu quarto passei.  Agitação por esses dias não eram bem vindas.

Talvez ano que vem eu esteja mais animada para essas festividades, mas eu já posso dizer que acho difícil. No fim eu continuo sendo aquela pessoa que se cansa fácil, e que precisa saber a hora que a diversão exacerbada acaba, para voltar para a casa, e para tudo que me é familiar.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Do meu quarto

O meu quarto novo é de frente para a Sé Velha, tem uma sacada e é no segundo andar. O problema é que é neste espaço que os bares de Coimbra se concentram. A casa em que eu moro já fica em cima de um deles. Isso quer dizer que durmo todos os dias com muitas vozes na minha janela, assim como música e risadas. Porém, isso não atrapalha meu sono, durmo tranquilamente. Até mesmo porque aqui os bares têm horário para fechar: às 4h:00.

O estranho é que durmo com o barulho e mais ou menos lá pelas 4h:00 eu acordo, com o silêncio. E nessa noite acordei com o silêncio e com o carro que passa lavando a Sé Velha, e que sempre me deixa na dúvida se é chuva, ou não.  E nessa noite acordei com o silêncio e perdi o sono por causa da serenidade do som de água no chão.

Aqui em Coimbra tudo tende a ficar ao contrário. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Trapaceiros

Aqui em Coimbra é verdade que vivemos conhecendo pessoas novas, lugares novos e vivendo experiências que entre o trágico e o incrível eu classifico todas de divertidas. Porém, não tem jeito, os assuntos que mais estão na nossa mente são saudade e o tempo.

E, como me disse uma vez Hemingway,  durante o dia é muito fácil levar uma vida feliz, mas é durante a noite que a verdade aparece (isso não é uma citação, é apenas como eu lembro). Pois é, tem dias que passamos muito bem e durante a noite eu só queria estar em casa. Um amigo me disse que é normal sentir saudades e que todos que estão aqui sentem a mesma coisa. Peço desculpas, eu sinto mais. Não me culpem, culpem aqueles que conviviam comigo.

Embora na semana passada eu tenha sentido aquela saudade de casa, acho que a cada dia que passa estou sabendo lhe dar com ela melhor. Saber lhe dar com a saudade pra mim é voltar a fazer o que eu fazia em Matão, sem aquela melancolia. Há alguns dias voltei a escrever no meu caderno de capa azul. Tinha-o abandonado, nunca mais o tinha aberto e na mudança de quarto (essa mudança é assunto de um outro post) senti uma vontade imensa de escrever nele. Como nos velhos tempos. E lê-lo! Claro! Ativar a memória sobre fatos e pessoas que não vivo e convivo há algum tempo, mas que sempre estão comigo. E então sentei e escrevi. Escrever em um diário é melhor que terapia, escrevemos sem culpas e despejamos tudo o que sentimos e no fim me sinto livre das minhas angústias, fecho o caderno e grande parte delas ficam ali.

Voltei a querer ficar em silêncio para uma leitura, para a leitura daquele livro muito importante para a Literatura, mas que nenhum professor tenha pedido.  E lembrei que o melhor lugar para ler é no tapete.

Já falei isso aqui, mas gosto muito quando sinto que estou mantendo a minha essência.

Eu sei que a saudade vai permear duramente um momento e outro, enquanto que no resto do tempo eu convivo com ela. A verdade é que às vezes desmentir a despedida é muito difícil.